quarta-feira, 15 de julho de 2009

Transversal

Hoje, de súbito, atravessei a rua sem olhar pros lados, como quando era criança. Não era raiva da vida; nem mesmo torci pra que um carro me achasse. Tampouco quis realmente chegar ao outro lado... mesmo que continuasse andando.
Quantas vezes já lhe aconteceu: ter certeza de que se precisa seguir em frente, mesmo que isso possa te matar subitamente?
Nesse exato momento, atravessaria cego becos, ruas e avenidas com uma única indagação:
Será que pode doer mais do que quanto dói agora?

Trivial atroz idade

A cada vez em que reconheço meus pecados,
Mais eles são meus e menos são pecados
Assim como o jovem caçador
Que passa dos patos no sítio
Para as baleias no Pacífico
Ou como o assassino em série,
Impune na sua centésima vítima

Meus pecados têm rugas: não usam filtro solar
Eles se mostram por inteiro, eles fumam Hollywood
Eles têm sede de sangue e fome de sexo
Deixariam um padre pedófilo
Totalmente perplexo

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Uma prosa poética sobre processo criativo

Ultimamente tenho feito mais textos ficcionais do que falado propriamente da minha vida. Isso é um reflexo do que ela tem sido ultimamente.
Geralmente, em poemas, eu parto de uma idéia central - um tema cujo primeiro verso geralmente já veio à mente - e depois há um processo mais ou menos mecânico, parnasiano, braçal mesmo, de escrever vários versos para que, no fim, um seja escolhido para o poema. Ou seja: muitas vezes, um poema de quatro versos pode ter demorado muito mais do que eu conto cotidiano pra nascer.
E isso tem a ver com a minha vida. Eu tenho pensado as coisas tão sistematicamente que a vida, pra mim, já tem virado ciência exata. E, se eu erro na vida, assim como quando escolho o verso certo - ou o melhor que tenho à mão - , vou consertando aqui e ali, comodamente, tudo o que pode vir a ficar mal-resolvido nela.
Sinceramente, quero que essa fase passe rápido.
Quero cometer um erro irreversível. Quero ser tomado pelas circunstâncias. E quero que elas existam por si só, porque criar cincunstâncias é ter controle sobre a vida. É ter a vida-exata de volta.
Quando escrevo prosa, tenho algo a contar, e não é do meu feitio contar rotina. A prosa deixa transparecer que algo de diferente aconteceu comigo. Minha prosa sou eu; minha poesia é quem eu queria ser e não posso; é o que eu queria sentir e não consigo.
Não sei por quanto tempo vou ser poesia. Só sei que ser poesia é de uma dor imensa que eu não consigo sentir. E que, por não conseguir sentir, me é muito mais dolorosa.
Desejem-me sorte.

Natureza

Eu dei um grito
A um mundo surdo
Mas meu eco estilhaçou os homens.

Poema abortado

Se vivo ou morro
Quem me deduz?
Não há tanta diferença
Entre estrela e cruz.

Tempo sem

Um abuso do rélógio é ter 24 horas olhando pra mim
24 motivos pra uma noite mal dormida; 24 motivos pra um café mal tomado
12 patroas ao dia; 12 putas à noite. Me deixam arrasado...
Como um bom servo, aceito solenemente: vou pra cama. Não há homem que agüente!
Já pensei em terminar com todas elas, mas a rotina não me diz como dizer.
Quero viver bem, quero um tempo sem
Sem nada pra fazer.

Mas é só olhar o relógio pra pressa aparecer.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Pan-industrial-sexualismo


...E o que nascerá do sexo selvagem entre uma garrafa d'água e uma árvore revestida de cal?

A garrafa, em pleno gozo, libera sua água mineral
A planta é regada, num delírio vegetal!
A tal planta, agora árvore, dará à luz outra planta,
Em breve, árvore, sem gota de semelhança com o pai
O mesmo pai que secou para dar-lhe a vida...
"Mundo injusto!", a garrafa brada
Sem saber que sua filha, mesmo sem parecer,
Tem mais do pai do que se possa entender
Já que eu, mero mortal, sou 70% água
(Será papai uma garrafa de água mineral?)
Hoje, a garrafa sobrevive
Talvez só pereça em duzentos anos
Aquela planta faceira deu-lhe uma noite de amor
E uma vida inteira de puro rancor
Seca por dentro, recipiente sem sentimentos
Corpo verde, embalagem azul
Tampa perdida, conteúdo nenhum!
Duzentos anos depois, ela em seu leito de morte;
Sua herdeira grande e forte, o mogno mais incomum
A mãe-árvore vadia, agora escrivaninha das Casas Bahia
Mas, antes de serrada e lixada,
Revelou a verdade à sua filha querida:
"Seu pai não é o Massaranduba. O nome dele é... Minalba!"
E foi serrada logo depois.
A filha não derramou uma lágrima - herdara a secura do pai.

E dizem que Deus nunca mais permitiu o pan-industrial-sexualismo, criando as sementes e a chuva.